Resumen de la Ponencia:
Vivemos no mundo mundo medido pelo tempo e não pelo espaço, onde somos defrontados por relações interpessoais superficiais justificações pelo contexto do aceleracionismo urbano contemporâneo. De forma compreender a maneira de realizar dum turismo com foco em experiências, este trabalho circundará sobre deceitos derivados do moviment lento, em específico na viagem lenta, onde este este comporta-se como um turismo baseado na troca e contacto com moradores locais, ou seja, de acordo com o Movimento Slow Travel Portugal (2012) essa prática de turismo uma "forma de estar" a qual consiste posiciona-se como um contra-ciclo posto para grandes operadores. No entanto, cabe salientar para o fato de que com o avanço do turismo nalgumas cidades, este acaba por proporcionar uma substituição de características locais, de forma no qual é possível de verificar uma transformação dos centros históricos e bairros populares, onde estes tornaram-se reféns do acelerado do crescimento turismo o qual provoca, direta ou indiretamente, desalojamentos, segregação residencial somado a dificuldade de aceder a moradias esses regiões (Mendes, 2016). Dessa forma, este trabalho analisará a importância da realização dum turismo baseado em experiência como ferramenta para contenção do fenómeno de gentrificação turística nas cidades contemporâneas.
Introducción:
Vivemos num mundo onde já não é preciso pensar para fazer a maioria das coisas e somado a isto, convivemos diariamente com a efemeridade nas relações socias, isto tudo dentro de um contexto de aceleracionismo urbano, de tal forma que torna-se difícil viver o momento presente sem pensar no passado e planear o futuro. De acordo com Carlos Moreno , a sociedade contemporânea tende a viver num ambiente medido pelo tempo e não pelo espaço, onde esta é constantemente defrontadas por relações interpessoais superficiais.
Com o passar do tempo, objetos, identidades e relações sociais são passíveis de sucessivas modificações, ou seja, torna-se processos fluídos de forma na qual são incapazes de permanecerem com a mesma identidade durante longo perído de tempo, sendo esta então uma das premissas descritas num dos livros de Zygmunt Bauman “Modernidade Líquida”, publicado pela primeira vez em 2001, onde o autor ilustra a questão da fluidez dentro da sociedade “moderna”, onde esta por vezes pode ser adpatada e moldada conforme inferências do local a qual esta inserida, deformando assim as suas propriedade originais (Bauman, 2001).
Posto isto, verifica-se que diante do avanço das tecnologias a partir do século XXI, a sociedade internalizou o espírito de “tudo para ontem”, ou seja, caso ocorra situações que vão ao contrário da expectativa de quem esta a espera de respostas, por exemplo quando ocorre uma demora na resposta dum e-mail ou até mesmo um atraso para chegar ao ambiente de trabalho, estas tornam-se passíveis de discussão, mesmo que o indivíduo esteja a fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo. É justamente nesse ponto que o slow moviment centraliza seus princípios, de maneira na qual busca debater acerca do capitalismo exacerbado onde as pessoas vivem numa constante corrida contra o relógio (Honoré, 2004).
Em seu livro intitulado “Os novos princípios do urbanismo”, de 2001, François Ascher faz uso da metáfora do hipertexto, onde esta foi utilizada pela primeira vez no campo da informática por Theodore Nelson, em 1965 (Levy, 1994: 39), com o intuito de 1 Professor da Universidade Paris1 Panthéon-Sorbonne demonstrar que ao clicar numa palavra dum texto seria possível adentrar numa série de outros textos com esta palavra em específico.
A par disto, Ascher (2001) fez uso desta metáfora ao tentar explicar as interações sociais inseridas no que chamou de “terceira fase da modernização”, onde este argumenta que o indivíduo é capaz de assumir diferentes papéis e siginificados de acordo com os tipos de interações sociais desenvolvidas no espaço urbano, o que possibilita assim, uma nova estruturação da sociedade – sociedade comutativa -, sendo caracterizada por possuir “n dimensões” ao passo no qual o indivíduo pode interagir de formas diferentes, de modo que um mesmo individuo realiza diversas interações ao longo do dia.
À vista disso, este artigo tenciona debater a sustentabilidade das cidades contemporâneas a partir do conceitos derivados do slow moviment e da sociedade do hipertexto. Num primeiro momento será discutido e exemplificado diferentes linhas do slow moviment, abrangendo áreas como alimentação (slow food); viagem (slow travel); e cidade (slow city). Como complemento a revisão bibliográfica, será discutido a metáfora do hipertexto aplicado as sociedades num contexto urbano contemporâneo, de forma que esta será caracterizada de acordo com Ascher (Idem).
Desarrollo:
Slow moviment: uma alternativa sustentável?
A veneração pela velocidade é vista como uma característica intrínseca à sociedade moderna, onde está é resultado de processos derivado do capitalismo emergente durante o século XVII por meio da Revolução Industrial. Iniciada na Inglaterra e dissipada noutras partes do mundo, esta foi responsável por alterar valores da sociedade até então, tais como a produção em massa, a mercantilização, e claro, a aceleração e exploração de recursos naturais.
Por influência desse marco histório contemporâneo, o estilo de vida nas cidades foi alterando-se de forma contínua e gradativa, sendo esta capaz de originar uma nova representação e concepção do espaço e do tempo. Por um lado, no tocante as modificações do espaço estas podem ser verificadas por meio de novas representações no urbano, sejam elas culturais, políticas ou económicas, de forma na qual são passíveis de processos contínuos de urbanização. A partir desta nova organização urbana, a variável tempo foi assumindo uma importância significativa – principalmente nas cidades indústriais – uma vez na qual estabeleceu-se novos ritmos sociais e metabólicos.
Com o passar do tempo, os resultados oriundos deste processo estão sendo cada vez mais percebidos e estudados, pois não somente trouxe consigo desenvolvimento industrial e tecnológico, mas acarretou também, num desgaste da saúde mental, mais especificamente representados pela ansiedade e depressão. É justamente nesse aspeto negativo do avanço do capitalismo que emergiram movimentos os quais questionam o usufruto temporal da sociedade para com o espaço urbano, dentre eles o slow moviment.
Diante da dicotomia industrial de produção, onde os indivíduos contemporâneos veêm-se obrigados a produzir mais, com menor custo e menor tempo possível, verifica-se, então, a presença da cultura de urgência pela diminuição sistemática do tempo conforme descrito por Gaulejac (2007). Em complemento, Gaulejac (Idem) argumenta sobre a necessidade de moldar um tempo plenamente rentável, o que por sua vez legitimaria assim a lógica operacional da sociedade moderna, onde “tempo é dinheiro”. A par deste cenário, Honoré (2006) salienta para o facto de que com o passar do tempo e da significativa aceleração da vida, seus custo-benefícios estariam numa acentuada queda e que os indivídos estariam numa corrida imaginária contra o tempo onde nunca chegariam na linha de chegada.
O facto é que o slow moviment, bem como outros movimentos sociais, possuem na sua cerne uma alternativa ao estilo de vida atual em diversos âmbitos, e neste caso em específico, sua questão central debruça sobre lógica produtiva incrustada no estilo de vida das sociedades, onde as suas ações propõem uma ressignificação dos valores da sociedade em contraponto com a lógica da eficiência no cotidiano da vida social (Arins e Van Bellen, 2009: 19), ou seja, este movimento tenciona combater a aceleração do tempo por meio da criação de conexões entre pessoas e ambiente. Cabe ressaltar que o slow moviment não tem como objetivo negar a existência da velocidade, mas sim que exista uma relação de equilibrio, de forma que as coisas sejam feitas na velocidade certa (Honoré, 2006).
Com o passar do tempo a função social da comida vem sofrendo alterações significativas, o qual na sua grande maioria está relacionada com o aceleracionismo urbano contemporâneo, onde a comida atua apenas como um saciador momentâneo de fome ao passso no qual outrora servia como um interlocutor e elo importante entre familia e amigos. A busca por alimentos e ingredientes de diferentes origens nos remete a época dos grandes descobrimentos, época essa que um dos objetivos principais era a busca de rotas para chegar as especiarias na Índia, de forma na qual desde essa época, a sociedade em si tende a valorizar e priorizar insumos de origem estrangeiras ao contrário de incentivar a produção local (a excluir quando é inviável a obtenção deste em território nacional).
Em sentido oposto, e em resposta ao movimento de fast-foodlização, o slow food nasce com uma proposta de incentivar o consumo local bem como sua produção, de forma em que atua em simultâneo como uma resposta a aceleração da vida moderna (Weiner, 2005). Inserido num contexto do slow moviment, o slow food é uma associação internacional sem fins lucrativos, fundada pelo italiano Carlos Petrini em 1986 numa resposta de instalação justamente duma cadeia de fast food, em Roma (Weiner, Idem). Desta forma, este movimento pretende conscientizar os indivíduos sobre o local da comida na vida das pessoas, uma vez que busca a conservação de hábitos alimentares locais bem como manutenção da identidade cultural dos povos que ali residem.
Outro ramo ligado ao movimento slow, debate sobre as formas de fazer turismo, onde muitas vezes o mesmo pode ser classificado como não sustentável, e é exatamente nesse ponto que seus idealizadores argumentam sobre os impactos de um turismo com visão utilitarista e acelerada. De forma geral, esse movimento tem como diretriz principal realizar um turismo baseado na troca de experiências, ou seja, que os indivíduos ao fazerem suas viagens entrem em contacto com os moradores locais, que apreciem a vista com calma, e que possa por ventura participar de atividades locais, contribuindo assim, para o seu desenvolvimento (Slow Movement Portugal, 2012). Portanto, de forma geral, o slow travel pode ser definido como:
[…] pode ser definido como a oportunidade do visitante em se tornar parte integrante do destino, contatando com a população e com o território, num ritmo adequado à apreensão da cultura local. Este movimento silencioso contraria o estilo de turismo que se afirmou no século passado, ou seja, os charters turísticos, os all-inclusive, as excursões programadas e planejadas, os horários, etc. O “Slow Travel” valoriza a estada prolongada, com tempo suficiente para ir mais além do que o must to see. Contatar com espaços locais, de pequena dimensão, com os produtores, com os mercados, com as populações, visitar aquela pequena igreja ou restaurante que não constam dos guias, ou seja, explorar, descobrir, usufruir, são os princípios do “Slow Travel”. O “Slow Travel” é uma “forma de estar” que surge como um contra-ciclo ao que é estipulado pelos grandes operadores turísticos” (Movimento Slow Travel Portugal, 2012).
Cabe ressaltar que de acordo com Aris e Van Bellen (2009: 3) onde os autores destacam as estruturas de consumo contrapondo os valores da sociedade industrial com os valores do slow movement, ou seja, pós-industriais, sendo elas a transformação de uma economia predatória para uma colaborativa e a alteração da visão clássica da economia marcada pelo acúmulo de capital para um mercado onde a variável mais significativa é o acesso aos bens, ou seja, o “ser” é maior que o “ter”. Nesse sentido, e ao observar o cenário do turismo nas grandes cidades, verifica-se que os viajantes estão a optar por vivenciar experiências autênticas, o que por vezes canaliza recursos económicos para determinadas regiões visitadas por meio de arrendametno de quartos em alojamentos locais.
Contudo, há que compreender os possíveis impactos maléficos para a comunidade local a partir do momento na qual a região passa a receber um número elevado de turistas, como é o caso de Amsterdão (Holanda). Dessa forma, outro movimento (também ligado ao slow moviment), repercute no cenário atual, o slow city. Caracterizado por ter na sua essência a tentativa duma desaceleração dos processos de globalização somado com a manutenção dos patrimônios exclusivos de cada região bem como o fortalecimento do slow food, assim, este movimento enfatiza o objetivo de que as cidades estejam em equilibrio (caracteristica principal do slow moviment) de maneira na qual consiga compreender num mesmo espaço urbano o novo e o antigo, o moderno e o tradicional, conforme exposto no Manifesto Cittaslow:
“cidades onde os homens ainda estão curiosos dos velhos tempos, cidades ricas em teatros, praças, cafés, oficinas, restaurantes e lugares espirituais, cidades com paisagens intocadas e artesãos encantadores onde as pessoas ainda são capazes de reconhecer o curso lento das Estações e seus produtos genuínos respeitando gostos, saúde e costumes espontâneos…”
Cabe ressaltar que nem todas as cidades estão aptas para realizar a sua candidatura e vir a ser considerada uma “cidade lenta” pois de acordo com o manifesto cittaslow só podem torna-se membro aquelas cidades que possuam 50.000 habitantes ou menos o que por sua vez dificulta a desaceleração das grandes cidades, sendo estas locais essenciais de aplicação de tal manifesto, uma vez que com o passar do tempo estas cidades podem começar a ter um custo-benefício negativo quando comparado com a sustentabilidade do ecossistema a qual estão inseridas. O manifesto slow city é composto por cinquenta e cinco compromissos divididos em seis categorias distintas onde cada cidade candidata é avaliada, sendo eles a política ambiental; incentivo aos produtos e produtores locais; infraestrutura; qualidade do tecido urbano; hospitalidade e comunidade.
É facto que no mundo contemporâneo a globalização representa um papel significativo no tocante a questões económicas e culturais, as quais podem originar alterações nos padrões de consumo e produção, e assim gerar por conseguinte uma nova identidade e de acordo com Marc Augé (1992) nasceriam diversos “não lugares”, ou seja, lugares esse os quais o autor exemplifica por meio de aeroportos, vias expressas, onde estes possuem uma caracteristica em comum, de forma na qual o facto de serem lugares de alta circulação de bens e pessoas os tornam incapazes de criarem uma identidade de grupo.
Em consequência desse acelerado consumo de práticas capitalistas as quais circundam os grandes centros urbanos, observa-se como resultado deste processo uma similiaridade em relação a práticas culturais de forma na qual pode vir a acarretar num possível distanciamento de identidade das comunidades bem como da cultura local. Em seu livro intitulado “Morte e vida das grandes cidades”, Jane Jacobs cunha o conceito de “cidades vivas” como sendo cidades as quais possuem uma característica em comum, a resiliência, sendo estas capazes de comprender, planear e se ressignificarem (caso necessário) de acordo com as alterações no espaço urbano. Assim, ao resgatar a definição de slow cities, verifica-se que este movimento atua como uma provável solução de orientação sustentável das cidades ao passo no qual procura desenvolver e melhorar a qualidade de vida das pessoas por meio de valorização do meio ambiente alinhado com o resgate das identidades locais.
Assim, as “cidades lentas” podem ser caracterizadas de forma geral por serem espaços urbanos no qual seus cidadãos tendem a fazer um usofruto consciente do contexto local para criar maneiras melhores e sustentáveis de vida (Mayer e Know, 2009). Presupõem-se que esta “nova sociedade” seja caracterizada por modelos de cooperação e conservação no que diz respeito a estilos de vida, por preferir um modelo mais holístico do que reducionista em relação a modelos culturais e por fim que as estruturas de consumo sejam bem definidas entre necessidades materiais e não materiais, sem que prevaleça o consumo material para suprir necessidades não materiais (Arins e Van Bellen, 2009).
A par desta breve introdução acerca do movimento slow e seus desmembramentos (slow food, slow travel e slow city) um ponto em comum configura-se presente em todos eles e o qual outrora foi destacado por Bauman (2001), a “fluidez” , onde esta mostra-se como um resultado direto do avanço da globalização, o que acaba por acarretar em relações superciais e em constantes mudanças, de forma na qual intensifica a relação do indivíduo com o tempo, ou seja, as pessoas vivem num modo “piloto automático”, sem saber o porquê de fazer certas atividades e, acaba assim, deixando de lado suas origens e identidade.
Portanto, diante desse cenário, tais movimentos que buscam dar uma nova velocidade para como as pessoas realizam as tarefas do cotidiano podem ser entendidos como uma forma de resistência ao avanço descontrolado do capitalismo nas cidades, ,uma vez na qual busca conscientizar os cidadãos sobre a importância de preservarem as suas raizes, ou seja, de buscar um equilibrio entre o local e o global. Contudo, e mais especificamente no contexto das slow cities há de salientar que este modelo pode não ser o ideal para implantação em todas as cidades, onde este tem o impeditivo do número de habitantes o que por sua vez é dificultado devido as complexidades dos grandes centros urbanos. No entanto, tais movimentos atuam como forma de reflexão para a velocidade e o modo que cada indivíduo esta a conduzir a sua vida e a partir disso poderá vir a mudar o rumo que as cidades estão a tomar, de forma na qual estas sejam sustentáveis a longo prazo em todos os aspetos.
A sociedade de “n” dimensões
No mundo contemporâneo percebe-se cada vez mais que todos os tipos de relações, sejam elas para com outras pessoas ou mesmo em relação ao espaço, estão a ser conduzidas com base na velocidade, ou seja, parafreando uma parte da canção “Viagem” de MC Marechal “ porque na rua, ninguém mais se encontra, se esbarra; ninguem mais se olha, se encara”, é possível verificar exatamente esta aceleração da vida de forma na qual as pessoas acabam por fazer tudo numa espécie de piloto automático, sem às vezes compreender o porquê de estarem a fazer tais atividades.
Com base na definição proposta por Richard Sannet a respeito do conceito de cidade, onde esta representa um “assentamento humano onde os estranhos têm a chance de se encontrar” (Sannet, 1978), esta exemplifica categoricamete a relação presenciada nas cidades, ou seja, onde outrora existia uma relação de proximidade para com as pessoas duma mesma cidade, hoje em dia nota-se que cada pessoa enxerga a outra como estranho. De acordo com Bauman (Idem: 122), estes encontros acabam por ser um “evento sem passado e consequentemente sem futuro, uma história para não ser continuada, sem deixar algo para resolver num próximo encontro”, e, assim, conforme denotação cunhada pelo mesmo autor, a sociedade atual presencia uma modernidade líquida, onde o tempo e espaço estão a ser correlacionados a todo tempo.
Diante da crescente globalização, e num contexto pós Revolução Indústrial, os laços sociais que por vezes poderiam estar enfraquecidos – seja pela distância física ou outro impeditivo – estão a tornar-se mais fortes mesmo num período que estes vínculos sociais assumem características mais débeis e frágeis (Ascher, Idem), marcados por um aumento constante e significativo dos meios de transporte (motorização), e somado a isto, o avanço gradual das tecnologias, em especial a tecnologia de informação. O tecido social que outrora era constituido por poucas e fortes relações interpessoais, os de hoje em dia são compostos por “fios” mais finos, de diferentes tipos, o qual lhe confere uma solidez alinhada com uma elasticididade, sendo assim, cultural e socialmente diversificado (Ascher, Idem).
Conhecido a partir do campo da informática, a palavra “hipertexto” surge como uma mudança significativa no ambiente da tecnologia de informação, e mais precisamente na relação do usuário com o computador, tornando esta experiência mais interativa, em contraponto o que ate então era composto por um sistema binário, rígido e centralizador (Lévy, 1994). Há que destacar que este conceito não restringe-se somente ao campo da informática, como também pode ser utilizado como metáfora noutros âmbitos, tais como o da comunicação de forma na qual é possível que partes dum hipertexto continuam a fazer sentido mesmo quando deslocadas no contexto original, ou seja, sem que ocorra uma fuga ao eixo central da temática.
É justamente neste ponto que François Ascher destaca em “Os novos principios do urbanismo”, de 2001, que o indivíduo pode vir a ser equiparado com um texto no campo da informática, onde este pode assumir um número infinito de sintaxes conforme o contexto no qual está inserido, de forma que:
“Os indivíduos se deslocam, real ou virtualmente, em universos sociais distintos articulados em configurações diferenciadas para cada um deles. Formam um hipertexto, com as palavras que se conectam em conjunto com textos informatizados. O hipertexto é o procedimento que permite “clicar” sobre uma palavra de um texto e acessar essa mesma palavra em uma série de outros textos. Em um hipertexto, cada palavra pertence simultaneamente a vários textos; em cada um deles participa na produção de sentidos diferenciados interagindo com outras palavras do texto, porém segundo sintaxes que variam eventualmente de um texto para outro. A digitalização das imagens abriu a possibilidade de construir igualmente hipermídias, que estabelecem vínculos entre textos, documentos sonoros e imagens (o prefixo hiper é utilizados aqui no sentido matemático de hiperespaço, ou seja, espaço de n dimensões).”
Deste modo, Ascher (Idem) compreendia que o indivíduo poderia vir a assumir diferentes papeis ao longo do dia conforme o contexto no qual está inserido, de forma que para cada momento o mesmo iria criar uma percepção única, percepção esta que não iria vir a se repetir futuramente, uma vez que o tempo e espaço não serão iguais. Tais papéis poderiam ser de caráter pessoal (relação com um amigo ou familiar) ou profissional (colegas de trabalho), por exemplo. E, diante do contexto de globalização da atualidade, o ser humano pode mudar de sintaxe de forma rápida e sem ao menos perceber, uma vez que, de acordo com Ascher (Idem: 47) nota-se a existência de “indivíduo-palavra”, onde a sua essência é constituida pela efemeridade do tempo na construção de vínculos sociais, os quais foram impulsionados pelo avanço das telecomunicações, uma vez que se um indivíduo liga do trabalho para casa, o mesmo está a sair de um “texto” e ir para outro (Ascher, Idem).
Num contexto de aceleracionismo urbano, Ascher (Idem) destaca a importância das tecnologias de informação e comunicação quando argumenta que a “nova economia” gerada a partir do uso da internet (por exemplo, a compra a partir de “um clique”), encontra-se inserida no processo de modernização ao passo no qual exemplifica a sociedade do hipertexto, uma vez que indivíduos dum certo local pode acessar e comprar conteúdos de diversas partes do mundo sem ao menos sair de casa, de forma na qual podem entrar e sair diferentes “textos” de acordo com suas necessidades.
A par disto, há que salientar o facto de que a partir da geração desta nova economia fundamentada, em partes, pelo avanço da tecnologia, a concepção do tempo e espaço assumem significados diferentes, dado que o tempo torna-se medido pelo horário de trabalho e horário de não-trabalho ao mesmo tempo em que verifica-se uma necessidade latente da construção de um tempo rentável fundamentado pela lógica capitalista (Gaulejac, Idem), e, em complemento, o espaço virtual assume destaque perante ao espaço físico, dado que a maioria das interações sociais e trocas comeciais são realizadas com o auxílio da internet. Neste ponto referente a velocidade do tempo, onde prevalece a concepção do “tempo é dinheiro”, ou seja, quanto mais tempo estiver a trabalhar melhor será, assenta os principios destacados anteriormente acerca do movimento slow, onde busca combater este tempo veloz ao mesmo tempo que pretende gerar uma conscientização a um regresso a vida em tempos passados com um maior convívio entre familiares e amigos, e não somente com o trabalho.
Dentre as três revoluções urbanas descritas por Ascher (Idem), sendo elas – em ordem cronológica dos acontecimentos, comunidade; sociedade industrial; e por fim a sociedade do hipertexto, o autor argumenta que esta última possui uma relação direta com o capitalismo cognitivo, onde este por sua vez é composto por ativos intangíveis (saberes e conhecimentos) e estão intrisecamente associados aos homens, máquinas e corporações, onde por sua vez acaba por descontinuar em partes os modelos industriais até então postos como referência na economia (Idem). Ao analisar a descrição detalhada de Ascher sobre estas revoluções urbanas, alguns tópicos assumem um siginificado especial para o desenvolvimento deste trabalho, sendo eles o comportamento dos elos sociais; dos territórios sociais; da cultura; e por fim das atividades económicas dominantes, onde estas sofreram mudanças significativas com o passar do tempo.
No tocante aos elos sociais, no período cunhado como “comunidade”, Ascher (Idem) afirma que não existia um número alto de relações interpessoais, ou seja, eram elos sociais pouco diversificados sendo essencialmente estabelecidos entre membros da familia ou de familias vizinhas, sendo estes elos fortes e estáveis. Num momento posterior com o advento da revolução industriial, estes elos passam a ser mais numerosos uma vez que passa a existir relações interpessoais não somente com membros da familia como também com colegas do ambiente de trabalho, indivíduos estes advindo de diferentes regiões. No entanto, na sociedade do hipertexto este cenário já sofre alterações significativas, onde os elos sociais continuam ainda sendo numerosos mas débeis e frágeis, uma vez que estes ocorrem não somente no espaço físico como também no virtual e estão em constante mudança, como referido anteriormente, os indivíduos são vistos como estranhos sem nenhum compartilhamento anterior e sem perspetiva de alterar isto num futuro próximo, sendo assim relações com data de início e término.
Noutro ponto acerca dos territórios sociais, os quais Ascher (Idem) descreve como sendo o espaço das relações sociais, onde estes por sua vez estão a sofrer alterações constante desde a primeira revolução urbana (comunidade) até a terceira e última (sociedade do hipertexto), dado que nos primórdios estes espaços de interações sociais aconteciam em ambientes locais e fechados, e em sua maioria eram amplamente autárquicos (Idem). Já no tocante a sociedade indústrial o principal diferencial consiste na ampliação justamente do território social, onde neste momento passa de um ambiente simplesmente local para uma base nacional, mas ainda sim estas interações estão dispostas no espaço físico, facto este que somente muda na sociedade do hipertexto. Nesta última revolução urbana dita por Ascher e em similiaridade com os elos sociais, os territórios também passam a ser virtuais, o que por sua vez aumenta a amplitude destas interações, dispostas tanto em territórios reais quanto virtuais, sendo este disseminado em escalas globais.
Em relação a cultura, Ascher (Idem) a caracteriza de forma semelhante ao descrito pelos elos sociais, uma vez na qual na primeira revolução urbana caracterizava-se por ser de caráter local e com o advento da globalização bem como o avanço das tecnologias de informação e comunicação, foi tornando-se diversificada com multipertenciamento tanto social quanto cultural, uma vez que foi possibilitado esta troca de experiência com indivíduos de diferentes regiões do mundo. Outros dois pontos os quais Ascher (Idem) faz questão de salientar essa evolução quando comparada as revoluções urbanas, assentam-se nas atividades económicas dominantes em cada uma bem como o tipo de urbanização dominante.
Quando mencionado as atividades económicas desenvolvidas nestas fases, verifica-se uma mudança significativa entre cada uma, dado que no início o sistema económico baseava-se na sua integralidade em atividades agrícolas, facto este que depois da revolução industrial e com o advento da introdução de linhas de produção bem como o uso do carvão nas máquinas a força motriz deixou de ser extraída dos campos de agrícolas e passou para as fábricas. Ao passo no qual a tecnologia foi inserida na ambiente económico, muita das produções e negociações eram realizadas não mais somente no espaço físico como também – e tende a aumentar exponencialmente – no ambiente virtual, onde Ascher (Idem) caracteriza como atividades cognitivas.
Por fim, cabe ressaltar a mudança presenciada no que diz respeito à urbanização predominante nestas fases, ou seja, como eram organizadas as cidades e como estas relacionavam-se com os indivíduos. No início a estrutura vista era de “cidade-mercado” (Idem) onde não existia uma separação entre local de moradia e de trabalho e com o passar do tempo já era notório a presença de cidades mais hierarquizadas bem como a presença de cidades industriais, facto este que veio a consolidar-se na última revolução urbana, onde o autor a caracteriza como sistema metapolitano, uma vez que impulsionado pela motorização a mobilidade viu-se modificar ao passo no qual não mais existia uma centralidade na cidade dado a forte polarização, desenvolvendo assim vida urbana afastadas dos antigos “centros”.
Conclusiones:
À medida que verifica-se o alargamento e dispersão dos “centros” urbanos, a utilização de automóveis como forma de transporte individual acaba por assumir um importante papel no fomento a aceleração da vida urbana, uma vez que acaba por diminuir as distâncias entre os locais e ao mesmo tempo vai ao contrário de um dos princípios do movimento slow, onde este por sua vez argumenta que precisamos desacelerar o ritmo de vida ao mesmo tempo em que deveriamos priorizar a realização de atividades as quais sejam capazes de produzir conexões entre o ambiente e pessoas.
Diante da forte globalização presenciada, verifica-se cada vez mais a falta de discernimento entre o tempo de trabalho e tempo de descanso, uma vez que torna-se quase impossível não poder ter tempo de lazer. Essa efemeridade da vida urbana associada com a obrigação de estar sempre a produzir, coloca em questão a sustentabilidade de uma vida saúdavel para os indivíduos e consequentemente para as cidades. Dessa forma, torna-se necessário avaliar tanto os pontos positivos quanto negativos deste aceleracionismo urbano presenciado na sociedade do hipertexto, ainda que os indivíduos estejam a todo momento conectados, a maioria acaba por tentar sobreviver ao invés de viver nos centros urbanos
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Palabras clave:
hipertexto; modernidad liquida; slow moviment;
hypertext; liquid modernity; slow moviment;
hipertexto; modernidade líquida; slow moviement